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Comunidades Caiçaras

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    Inicialmente nomeada Vila de Santos e depois elevada à categoria de Cidade em 1839, a atual Cidade de Santos teve um crescimento populacional considerável partindo do canal devido ao aumento da movimentação e ampliação do Porto. Esse crescimento acarretou diversos problemas, como uma grande epidemia de febre amarela em 1889, que dizimou setecentas pessoas. Santos sofria constantemente com as doenças e com os alagamentos. A falta de saneamento básico era um problema. Para sanar tais problemas, duas obras foram fundamentais: o Porto Organizado, inaugurado em 1892, e o Saneamento de Santos, que é o responsável pelo fim das doenças e insalubridade de Santos. O projeto do engenheiro Saturnino de Brito teve o triplo mérito de drenar as planícies alagadas com os canais de drenagem, de preservar a memória histórica do Centro e de ordenar a ocupação urbana da Ilha de São Vicente com um plano de ruas. 
     
    Por conta disso o porto de Santos foi crescendo populacionalmente por comunidades ligadas à pesca e plantio, entre outras atividades, bem como pela própria mão de obra do porto. Esse tipo de crescimento ocorre também às margens das ferrovias e rodovias que davam acesso ao porto.
     
    Parte das moradias eram cedidas pelas próprias empresas, que construíam as casas para os trabalhadores. O restante da ocupação se deu com a vinda de familiares e pessoas que vinham atrás de trabalho, ampliando o número de casas. A implantação inicial dessas casas eram livre, em terrenos conjuntos, sem divisas, do tipo “chácara”. Com o tempo os terrenos foram loteados e divididos entre os moradores.
     
    As tipologias construtivas eram variadas, dependendo do lugar onde eram implantadas. Se mais próximas ao canal, construía-se sobre palafitas; se um pouco mais distante do mesmo, usavam-se as semi-palafitas. Essas eram as duas tipologias mais usadas na época, mas com o passar do tempo foram sofrendo modificações e adaptações. O aparecimento de novas tecnologias deixou-se de usar materiais do próprio local e passou-se a usar material industrializado. As edificações mais antigas foram sofrendo alterações, substituindo partes construídas com material de baixa resitência e alta manutenção por materiais de alta resistência e fácil manutenção, como as telhas e os tijolos de barro.
     
    Dentre as tipologias usadas na época, uma das principais era a construção de madeira, elevada do solo do tipo semi-palafita sobre uma base de pedra encimada e com a u fundação mais profunda também de pedra. Esse tipo de construção era muito usado na época das ocupações destas áreas, suas fundações, feitas de alvenaria de pedra irregular com argamassa de barro e cal eram executadas em formas de madeira que excediam alguns centímetros acima do solo preparado. Logo acima das fundações de pedra erguiam-se então as bases de apoio, feitas em pedra ou tijolos de barro e que serviam de sustentação para o madeiramento principal das casas. 
     
    Neste madeiramento principal eram fixadas todas as outras madeiras da estrutura secundária, e também as vedações e o piso. Junto às bases sobem os pilares de madeira que dão sustentação ao telhado, geralmente de duas águas. Seguem-se as terças, caibros e ripas, sobrepostas por telha francesa ou de fibrocimento (não originais).
     
    As vedações, sendo paredes externas, eram feitas de madeira tipo macho/fêmea, onde uma tábua de madeira se encaixa na outra ou, então, com o mesmo princípio onde, ao invés de encaixe, seguia-se com uma ripa menor pregada entre as duas maiores dando fixação e vedação necessária (mata junta). Com o passar do tempo essas madeiras de vedação iam apodrecendo e sendo substituídas por outras, principalmente nas áreas molhadas, que compreendem a cozinha e o banheiro. Como a substituição nessas áreas era muito comum, muitas das casas substituíram a madeira por alvenaria de blocos.
     
    Além desse tipo de construção existiam também as palafitas,  usadas especialmente por pescadores devido à localização de suas casas, mais próximas ao mar. Esse sistema construtivo é apropriado para regiões alagadiças, com uma estrutura assentada sobre pilotis de madeira. Tem pouca durabilidade por causa da biodeterioração, o que gera um horizonte de uso útil de 20 a 30 anos. 
     
     
    Comunidades
     
    Durante os trabalhos de campo a equipe procurou documentar aspectos do cotidiano das comunidades caiçara localizadas na baía de Santos, sendo elas:
     
    Ilha Diana
    Monte Cabrão
    Sítio Cachoeira
    Praia do Góes;
    Santa Cruz dos Navegantes;
    Conceiçãozinha;
     
    Conceiçãozinha
     
     
    Localizada em Vicente de Carvalho, Distrito do Município de Guarujá, próximo ao rio Santo Amaro. Essa comunidade encontra-se delimitada geograficamente por terminais de carga e descarga. Com o início das instalações das indústrias, às margens do estuário, na década de 60, a antiga vila de pescadores foi cada vez mais sendo delimitada em sua área. A Prefeitura do Guarujá contabilizou uma população residente de 4.536 habitantes, mas esse número é bem diferente do estimado por moradores, que acreditam que existam cerca de 2.800 famílias, totalizando quase 10 mil moradores, sendo a maioria em condições de pobreza. E situação agravada com invasões existe cerca de cento e setenta (170) pescadores com o sustento de suas famílias com o produto da pesca retirado do estuário, poucos moradores com colocação no complexo industrial ou no porto, sendo que a maioria vive de subemprego e/ou trabalhos avulsos não qualificados.
     
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    Vista parcial do sítio Conceiçãozinha - Fonte: EIA do empreendimento.
     
     
    Ilha Diana
     
    Localizada na Foz do Rio Diana, na Área Continental de Santos, o bairro Ilha Diana é um exemplo de povoado caiçara (Figura 2). A grande parte dos habitantes é descendente de cinco (05) antigas famílias de pescadores que ali se estabeleceram após a construção da Base Aérea de Santos, na década de 40, antigo local que habitavam. A comunidade da ilha Diana, pequena ilha fluvial no estuário, persiste como um dos poucos núcleos de pescadores de toda Baixada Santista, onde a dificuldade de acesso permitiu a sobrevivência das atividades pesqueiras artesanais até o momento com pouca influência externa.
     
    O último censo realizado na vila no ano de 2003, levantou uma população relativamente estável constituída de sessenta e cinco (65) famílias e aproximadamente duzentos e cinco (205) habitantes. Cerca de metade das famílias têm seus chefes trabalhando na pesca como parte da sua subsistência paralelamente a outra atividade, como pequenos comércios (bares) e pequeno viveiro para a manutenção do camarão vivo, comercializado principalmente nos finais de semana, para os turistas de pesca náutica. Considerando a mesma base de informação que está sendo utilizada neste diagnóstico, a Ilha Diana corresponde ao setor censitário 608, sendo que em 2000 possuía 100 domicílios permanentes, com uma população de 393 habitantes. Segundo estudos, em 2003 a população dessa comunidade era de cerca de 200 habitantes.
     
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    Vista parcial da Ilha Diana - Fonte: EIA do empreendimento.
     
    Monte Cabrão
     
    O Monte Cabrão integra a Área Continental de Santos com aproximadamente seiscentos (600) residentes em uma dimensão de 631, 5 mil metros quadrados.
     
    A população do bairro atualmente é formada por pessoas oriundas do nordeste do Brasil, com a pesca e pequeno comércio voltado para a comunidade local. Em 1980 havia oitenta (80) habitantes e, em 1993 a população subiu para duzentos (220). Segundo os dados do setor censitário relativos a Monte Cabrão, o setor 607, essa comunidade tinha em 2000 um total de 33 domicílios permanentes, uma população de 122 pessoas. Segundo estudos, em 2003, a população desta comunidade alcançava 220 habitantes.
     
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    Vista parcial de Monte Cabrão - Fonte: EIA do empreendimento.
     
    Sítio Cachoeira
     
    Localizada na área adjacente à entrada da barra do Canal de Bertioga, região da Serra do Guararu (denominação da extensão norte da ilha de Santo Amaro), na vertente voltada para o canal, encontra-se uma comunidade tradicional com a mesma denominação. A existência dessa comunidade remonta a 1874, segundo os moradores. Pesquisa efetuada duas décadas atrás mostrou que apenas alguns pescadores mais velhos dedicavam-se à pesca do peixe e do camarão, enquanto que os mais novos faziam a coleta de ostras com equipamentos de mergulho ao longo do canal.
    Atualmente a atividade pesqueira diminuiu significativamente e apenas alguns velhos moradores sobrevivendo da pesca e da coleta do marisco de Mangue, enquanto os novos descendentes trabalham como empregados no setor de serviços. 
    A comunidade do Sítio Cachoeira corresponde ao setor censitário 213 e em 2000 possuía um total 313 domicílios permanentes e 8 coletivos, com uma população total de 1150 habitantes. Estima-se ainda que 30% dos que se dedicam à pesca na região não sejam ligados às colônias. Segundo o Instituto de Pesca, cerca de 600 pescadores pescam no interior do estuário.
     
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    Vista parcial do Sítio Cachoeira - Fonte: EIA do empreendimento.
     
    A comunidade da Praia do Góes
     
    Durante os trabalhos de campo deu-se início à documentação dos usos e costumes tradicionais do cotidiano da comunidade de pescadores da Praia do Góes ou do Góis, como hoje é denominada, entrevistando alguns dos seus moradores locais.
     
    A população desta pequena enseada localizada na ponta Ocidental da Ilha de Santo Amaro, município do Guarujá, não excede hoje as 150 pessoas. Apesar de se encontrar ao lado do Guarujá e à vista da cidade de Santos, a Praia do Góes e seus habitantes mantêm ainda hoje uma calma e paz difíceis  de encontrar nos núcleos habitacionais da região. Para isso foram e são ainda hoje decisivas as encostas do morro da Sangava e da Ponta da Barra que formam um anfiteatro natural que domina a enseada e o pequeno vilarejo a seus pés. A ausência de estradas e o acesso exclusivo por barco ou por trilhas pedestres ao longo das encostas complementam o cenário de “isolamento” da população local, que mantém assim características únicas que importa preservar e valorizar da forma que ainda hoje subsiste. De ressalvar, que quando questionados sobre a questão dos acessos, os moradores foram unânimes ao afirmar que não pretendem ter qualquer outro tipo de via de comunicação terrestre que não as existentes, a qual, na sua perspectiva, traria mais malefícios do que benefícios.
     
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    Vista parcial Praia do Goes
     
    Santa Cruz dos Navegantes
     
    A comunidade de Santa Cruz dos Navegantes, também conhecida como Praia da Pouca Farinha, localiza-se próxima a Praia do Forte, na área ocidental da Ilha de Santo Amaro, município de Guarujá. A ocupação se iniciou em torno do Forte de Santo Amaro (construído em 1584). A partir da década de 1930, a povoação estendeu-se a beira-mar. Até o início da década de 1950 não havia água potável na comunidade. A situação se modificou com a construção de um chafariz público, que a partir de então se tornou símbolo para Santa Cruz dos Navegantes. A pesca é uma atividade importante para as pessoas da comunidade.
     
    O patrimônio imaterial desta comunidade exibe narrativas, contos, pratos típicos entre outros. Um dos contos bastante conhecidos trata-se da mulher de branco. Dois homens estavam pegando camarão na prainha da Cortadura (próximo ao Portão Espanhol da Fortaleza da Barra). De repente, ouvem-se gritos e urros como se alguém estivesse sendo enforcado. Avistaram uma mulher toda vestida de branco, que desceu das pedras, banhou-se nas águas do mar e foi embora. Os dois homens correram apavorados. Os moradores comentam que as mães e avós aconselham os filhos a não irem sozinhos na praia por causa da misteriosa mulher de branco (Ação Comunitária, Núcleo de Extensão Universitária UniSantos, 1997).
     
    O patrimônio material de Santa Cruz dos Navegantes também apresenta exemplos de construções semi-palafíticas. As fundações são feitas de alvenaria de pedra irregular, com uso de argamassa de barro e cal. Logo acima das fundações de pedra erguem-se as bases de apoio, feitas em pedra ou tijolo de barro que serviam de sustentação para o madeiramento principal das casas. A partir do madeiramento principal são fixadas todas as outras madeiras da estrutura secundária e também as vedações e o piso. Junto às bases, são erguidos pilares de madeira que dão sustentação ao telhado, em geral de duas águas. As vedações são confeccionadas em madeira: uma tábua de madeira se encaixa na outra (tipo macho-fêmea), ou então, no lugar do encaixe uma ripa menor é pregada entre duas maiores que dá a fixação e vedação necessárias (mata junta).
     
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    Vista parcial Santa Cruz dos Navegantes
     
     

    Fonte: O Material Contido nesta Página é proveniente do PLANO DE GESTÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL SISTEMA VIÁRIO DA MARGEM DIREITA DO PORTO DE SANTOS coordenado pela Responsável Técnico Científica L.D. Dra Erika Marion Robrahn-González.

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